28 de dezembro de 2010

Oswaldo Montenegro - Metade



Metade

Oswaldo Montenegro
Composição: Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

9 de novembro de 2010

Ana Carolina -- Elevador / Livro de Esquecimento - Clipe Oficial

"Me ganhou, vai ter que me levar."

" Entreolhares " - Ana Carolina e Will Legend

Essa música é linda e a frase que deu título a este post devastadoramente justa...rs. Por que há conquistas vãs ? Por que algumas pessoas nos conquistam sem razão ? Pior: por que não sabem o que fazer quandos e dão conta de que nos conquistaram?

É muito frustrante quando alguém, simplesmente do jeito que é, conquista algo de especial em nós: a predisposição ao envolvimento, o encantamento, a confiança...e depois não quer saber de nada disso, quer apenas o fugaz, o momento, o "flash do encontro".

Ela estava lá, quieta no seu cantinho, cuidando sozinha de si mesma, achando que deveria exercitar ao máximo a autossuficiência e lidando bem com a solidão. De repente, eis que surge esse alguém, "olhando, querendo, procurando"...e quando ela se deixou levar sem querer saber onde iria dar, ele puxou o tapete dizendo que só queria estar ali, mas não sabia se queria seguir. #fail

5 de novembro de 2010

Era uma vez...não foi.

Era uma vez uma mulher que usava um perfume de uma marca fabricante de canivete suíço e sorria para a vida querendo aproveitar e amar. Um dia, ela conheceu, completamente ao acaso,  um homem (meio meninão ou meio instável), com uma inteligência e perspicácia acima da média, mas sem muito foco.

Apesar do racicínio lógico, ele surgiu quando aquela mulher estava mais sensível e de um jeito muito peculiar, apesar da pouca estatura, ele a abraçou como quem cuida do mundo de alguém....e ele sabia fazer cafuné, contar histórias de outros lugares, fazê-la rir, ouvir o que ela tinah a dizer...mas ele avisou que apesar de tudo isso era frio por dentro.

Ela não tinha um coração precavido, mas já havia aprendido o suficiente com a vida para não contrariar avisos assim e aos poucos foi aproveitando, mas também segurando a si mesma.

Um dia ele lhe apresentou um pôr-do-sol diferente e um momento desses que fica para sempre nas lembranças, mas ele não se propôs a correr o risco de amar, de viver uma história e ela não suportava esse meio-termo, meia-entrega, meio-covarde emocionalmente...sim, porque o amor é para os corajosos, não tem seguro, nem manual.

Foi então que ela se fechou, recolheu sua coragem, sua disposição e seu entusiasmo e foi seguir sozinha, era uma vez o que não foi.

2 de novembro de 2010

E em dias difíceis, a fotografia tem sido uma solidária companhia... assim como tem sido ótima a companhia de quem me apresentou essa vista na minha cidade.

Às vezes me dou conta de que não conheço um décimo das belezas de Salvador. Apesar de a cidade não estar no auge da sua apresentação, há lugares históricos e belezas naturais incríveis.

Essa foto foi feita a partir do Forte de São Marcelo, que eu só tinha visitado em evento protocolar há uns 20 anos. Foi maravilhoso e delicioso revisitar o forte com a P-90 e descobrir um lugar onde é possível estar consigo mesma e ouvir o mar, além de presenciar um lindo pôr-do-sol e obter boas imagens, que podem ficar ainda melhores.

Há coisas piores do que a morte e a guerra ou Minha avó, meu tesouro.

Nós passamos boa parte da vida pensando "pior é na guerra" ou "só para a morte não há saída", como se essas fossem as piores coisas a que estamos sujeitos. De repente, algo na vida ou da vida nos mostra que não é bem assim.

Pensamos também que a morte de alguém querido é das piores coisas que precisaremos superar, mas eis que a vida também pode nos mostrar que a forma como esse alguém morre (ou não) também pode agravar a dor. Perder alguém para a morte é péssimo; perder alguém ainda vivo, é pior.

Alguns de vocês sabem exatamente sobre o que estou falando e eu lamento que saibam, assim como lamento que eu eminha família tenhamos descoberto.
No dia em que o mais sensível, esperançoso e empenhado dos médicos da minha avó disse que não havia mais nada a ser feito a não ser esperar que o corpo dela descansasse e o óbito viesse foi um dos piores dias da minha vida. Um dia do qual ainda não me recuperei e que para sempre vou lamentar. Isso foi dito numa reunião com minha família materna e cada um recebeu de uma forma personalíssima a notícia. Eu fui a única neta presente. Eu me sinto a 5a. filha, não posso negar.

Cientificamente, não sei se o que minha avó passa é o que chamam de vida vegetativa ou morte cerebral, mas acho que é um pouco pior, pois minha ela respira, seu corpo funciona, mas ela não está ali, não abre os olhos, não demonstra estar viva, senão pela aferição de aparelhos que jamais permitirão que eu a sinta de novo presente. O consolo é saber que ela não sente dor, o medo maiorfoi quando o médico disse que ela poderia sentir.
Eu lhes digo: esse contexto é pior do que saber que ela não estará mais aqui; é pior do que a morte. Qualquer conclusão sobre a situação é dura demais e neste momento me sinto incapaz de redigir frases tão duras e pragmáticas.

Desde que ela entrou em coma, eu sabia que ela poderia não acordar, tanto por estar há mais de 03 anos envolvida com assuntos médicos, quanto por conhecimento geral e perguntas que fiz aos médicos dela. Eu tinha tanto medo de que acontecesse o que acontece agora (ou talvez intuisse) que cheguei a perguntar com todas as letras ao neurocirurgião e ele foi duro ao responder, mas também esclareceu.

Quando a vejo, meu coração dói...dói tanto que às vezes acho que não vou suportar a angústia.

Até aquele dia, eu achava que estava conformada, mas a notícia trouxe pra fora todo medo, dor e uma certa revolta pela perda. Dói por mim, por minha mãe, por meus tios; dói por adivinhar a ausência, por perder sonhos, mas principalmente dói não sentir mais minha avó me dando colo, me fazendo cafuné, me olhando como só ela me olhava - um olhar que SEMPRE me fazia mais especial do que penso ser. Ela sempre foi parte especial, importante e doce da minha vida; o colo que eu SEMPRE tive a minha disposição, o cafuné mais gostoso, o momento de deixar d elado a vida adulta e voltar a ser só a neta dela; alguém que sempre me olhou com certa veneração e para quem eu quis ser sempre o meu melhor... minha avó era parte da mjinhas conquistas, orgulho dos meus acerto e alento nos erros ou fracassos...era também força para superar; mais do que rezar, ela me incentivava, acolhia...e como eu já disse: ela era a única que me fazia especial com todos os meus erros, acertos, qualidades e defeitos, cada vez que olhava pra mim e me chamava de minha filha


Eu tenho 32 anos e muitos podem imaginar que a avó não tem mais um espaço importante...comigo isso não se aplica, nunca se aplicou, jamais se aplicaria ou aplicará. Minha avó construiu comigo uma relação única, que talvez venha mesmo de outras vidas, de outras razões muito mais fortes que o sangue.

Se "as avós são as esmeraldas de toda criança", eu tive/tenho uma mina de pedras precisosas, das mais especiais e raras reunidas numa só avó. Ela foi e é, ao lado de meu avô e meus pais, o meu maior tesouro, meu bilhete da megasena acumulada.
Nunca, jamais, eu deixarei de ser grata por minha avózinha ter feito parte da minha vida, da minha essência e por termos nos amado tanto e sempre e estado sempre muito próximas. Lembranças dos nossos momentos serão sempre afagos na minha alma.

Eu quis muito ter um filho que ela pudesse embalar e contar histórias que eu ouvi na infância...não deu tempo...me atrasei.

Minha avó foi a tradução completa do que a palavra avó traz em si e eu nunca terei feito por ela tudo que ela fez por mim, mas nos amamos muito e nunca nos perderemos por completo. Nesse momento só posso rezar pelo bem dela, superar minha covardia para visitá-la, apoiar meus familiares e seguir na busca de viver "apesar de" e superar aos poucos a dor.